José Antonio Kast, o novo presidente do Chile e a virada política no Cone Sul
Por que a escolha do Chile ajuda a explicar a nova fase política e econômica da América do Sul

A direita volta ao poder no Chile
O dia 14 de dezembro de 2025 marcou a chegada ao Chile de um movimento que já vinha se espalhando pela América do Sul.
O retorno da direita ao continente:
O Paraguai já não fazia parte do grupo de países governados pela direita há bastante tempo. O Equador mudou em 2021, a Argentina em 2023, e 2025 marcou a virada do Peru e da Bolívia. Agora o Chile que entra nesse novo capítulo.

Então, na América do Sul restam Brasil, Colômbia, Guiana, Suriname, Uruguai e Venezuela com governos de esquerda.
Na Colômbia, as eleições estão marcadas para maio de 2026, e o clima já é de virada.
O candidato Abelardo de la Espriella, político do partido Defensores de la Patria (direita), aparece com 34% das intenções de voto, segundo pesquisa Polymarket (12 de novembro).
Enquanto isso, o atual presidente Gustavo Petro amarga 66% de rejeição (dezembro 2025).
Se o padrão do Chile se repetir, a Colômbia será a próxima a mudar de direção.
Já a Venezuela, teve Maduro detido pelos EUA em janeiro de 2026 e agora está com um governo de transição liderado por Donald Trump, por tempo ainda indeterminado.
E no Chile, José Antonio Kast (candidato de direita) venceu Jeannette Jara (candidata de esquerda) e foi eleito presidente do Chile com 58,3% dos votos marcando uma mudança significativa na política do país.
Um resultado que indica quais temas passaram a pesar mais para os eleitores chilenos: segurança pública, o tamanho e o papel do Estado e a busca por um ambiente econômico mais dinâmico.
É por isso que vale prestar atenção. O Chile sempre ocupou uma posição particular no Cone Sul e, historicamente, suas mudanças costumam dizer muito sobre os rumos da região.
Por isso, neste artigo, vamos focar em pontos essenciais dessa nova mudança de comando:
- como está o Chile hoje, logo após a eleição
- por que o país voltou a optar por uma agenda mais à direita
- quem é José Antonio Kast e qual o seu peso na política chilena
- e como essa virada pode influenciar o Cone Sul nos próximos anos
A proposta aqui não é discutir preferências políticas, mas entender o panorama atual.
Para quem acompanha tendências internacionais para investir, se mudar, empreender ou simplesmente compreender melhor o contexto em que vive, essas mudanças ajudam a tomar decisões mais seguras.
Como o Chile está hoje: o cenário que Kast vai encontrar

Antes de olhar para o que vem pela frente, vale voltar um passo e entender o contexto que levou a essa mudança de comando.
Até março, quem ainda ocupa a presidência é Gabriel Boric, líder de esquerda que chegou ao poder cercado de expectativas, mas que nunca conseguiu se recuperar dos primeiros tropeços do governo.
Logo no início do mandato, Boric apostou alto na tentativa de substituir a Constituição herdada do período Pinochet. O processo terminou em um duplo fracasso: dois plebiscitos rejeitados pela população e um custo superior a 150 milhões de euros. Foi ali que surgiram os primeiros sinais de distanciamento entre as propostas apresentadas e o que a maioria dos chilenos estava disposta a apoiar.
Com o tempo, a insatisfação se acumulou, principalmente em dois pontos centrais: economia e segurança.
Economia: um país que começou a perder ritmo
É importante deixar claro: o Chile não entrou em colapso. Pelo contrário, continuava sendo um dos países mais estruturados da região.
Alguns indicadores ajudam a ilustrar isso:
- IDH de 0,878, superior ao de países como Portugal e Romênia
- taxa de homicídios de 6,3 por 100 mil habitantes, ainda baixa para padrões latino-americanos; (Brasil 21.1, México 19.3)
- 18º lugar no Ranking de Liberdade Econômica e 2º na América Latina;
- Benefícios fiscais: ausência de imposto sobre grandes fortunas, IVA de 19%, possibilidade de viver até seis anos sem imposto sobre rendas do exterior.
Mesmo assim, a percepção interna começou a mudar. A economia perdeu fôlego e isso ficou evidente no dia a dia da população.
Entre 2022 e 2023, o crescimento do PIB per capita foi de apenas 0,4%, o pior desempenho chileno em mais de três décadas. Embora 2024 tenha trazido uma recuperação modesta, com o crescimento do PIB de 2,6%, e a inflação tenha sido gradualmente controlada, o desemprego seguiu perto de 9% , um nível elevado para os padrões do país.
Assim, a sensação era de que a economia não andava para trás, mas também não avançava o suficiente para melhorar o padrão de vida da população.
Segurança: o principal ponto de desgaste
Se a economia gerava frustração, a segurança pública virou, de longe, o tema mais sensível. Mesmo continuando relativamente mais seguro que outros países da região, o Chile viu seus indicadores piorarem de forma consistente. O debate sobre o aumento da criminalidade passou a incluir também a questão da migração, frequentemente associada à discussão sobre segurança pública.

A taxa de homicídios mais que dobrou, passando de 2,32 por 100 mil habitantes em 2015 para cerca de 6,0 em 2024. Os sequestros atingiram um recorde histórico, com 868 casos em 2024, e o Ministério Público atribui cerca de 40% deles ao crime organizado, incluindo grupos como o Tren de Aragua.
Crimes de grande repercussão, como o sequestro e assassinato do ex-oficial venezuelano Ronald Ojeda em Santiago, reforçaram a percepção de insegurança. Para muitos chilenos, a sensação era de que algo que sempre funcionou bem começou a escapar do controle. Diante desse cenário, cresce a discussão sobre a necessidade de fortalecimento da força policial para responder de forma mais eficaz à criminalidade.
Somando uma economia sem tração, uma crise de segurança cada vez mais visível e a frustração com promessas não cumpridas, o governo Boric terminou seu ciclo com altos índices de desaprovação, próximos de 60%.
É nesse contexto que José Antonio Kast assume. Ele encontrará um país cansado do ambiente dos últimos anos e disposto a testar uma abordagem diferente.
Quem é José Antonio Kast

Para entender por que a eleição de José Antonio Kast teve tanto peso no debate chileno, é preciso conhecê-lo um pouco melhor.
Kast tem 59 anos, é advogado formado pela Pontifícia Universidade Católica do Chile e iniciou sua trajetória política ainda jovem. Católico praticante, casado com a advogada María Pía Adriasola há mais de três décadas e pai de nove filhos.
Atuou como deputado da Câmara dos Deputados do Chile de 2002 a 2018, inicialmente vinculado à União Democrática Independente (UDI), um dos principais partidos da direita tradicional chilena. Ao longo desse período, construiu uma atuação marcada por posições conservadoras nos costumes, liberais na economia e críticas à expansão do Estado. Com o tempo, passou a defender uma postura política mais definida ideologicamente.
Essa ruptura ficou evidente em 2016, quando deixou a UDI para disputar a presidência da República de forma independente, terminando a eleição com menos de 10% dos votos. Em 2021, voltou a concorrer, já à frente do Partido Republicano, fundado por ele próprio, mas acabou derrotado por Gabriel Boric.
Em 2025, tentou novamente. Dessa vez, venceu em todas as regiões do país e se tornou o presidente mais votado da história do Chile, com pouco mais de 7,2 milhões de votos.
O que Kast prometeu
Medidas de imigração como Trump, cortes de gastos e isenções fiscais como Milei e segurança como Bukele, isso é o que muitos esperam.
Já que a vitória de Kast veio ancorada em uma proposta, que ele próprio chamou de “governo de emergência”.
A ideia central é agir rápido em áreas consideradas fora de controle, especialmente segurança pública, imigração irregular e gestão do Estado.
Segurança e imigração como prioridades imediatas

No campo da segurança, Kast defendeu uma abordagem mais dura, prometeu aumentar o combate ao crime e fechar as fronteiras para imigrantes irregulares.
Durante a campanha, visitou El Salvador e citou como referência o modelo adotado por Nayib Bukele, incluindo a construção de mega-prisões e o fortalecimento do aparato policial.
Entre as propostas apresentadas estão a ampliação dos poderes das forças de segurança e o endurecimento das penas para crimes ligados ao narcotráfico e ao crime organizado.
Na imigração, o discurso seguiu linha semelhante à adotada nos Estados Unidos nos últimos anos. Kast propôs a criação de uma força especializada nos moldes do ICE americano, com o objetivo de identificar, deter e expulsar imigrantes em situação irregular.
Economia: ajuste fiscal e ambiente mais aberto
No plano econômico, Kast se apresenta como defensor de uma economia mais aberta com menos intervenção estatal e regras mais simples para quem investe e empreende. Sua plataforma inclui:
- maior flexibilidade nas leis trabalhistas
- redução de impostos, especialmente para empresas
- simplificação do sistema tributário
- revisão e corte de gastos públicos ligados à estrutura política
- privatização ou concessão de empresas e serviços públicos considerados não estratégicos.
Há, nesse ponto, semelhanças com a agenda apresentada por Javier Milei na Argentina.
Qual a importância da eleição de Kast para o continente

A eleição no Chile reforça a ideia da virada política, já que em vários países da região a esquerda deixou de ser a principal referência política.
Como no próprio Chile, promessas de grandes mudanças sociais esbarraram em problemas básicos, como falta de dinheiro, aumento da violência e frustração com resultados que demoraram a aparecer.
Mas, o que se vê agora não é uma virada ideológica completa, e sim uma mudança de foco crescente. O eleitor passou a dar mais importância a temas do dia a dia, como segurança, funcionamento do Estado e crescimento econômico.
Por isso, essa eleição mostra que a América do Sul está entrando em uma fase de reorganização. Ainda não dá para saber até quando esse ciclo vai durar, mas já é possível perceber um padrão: países que oferecem mais abertura fiscal, menos conflitos políticos e segurança tendem a atrair mais investimentos, empresas e pessoas.
Nesse cenário, o Chile ganha ainda mais destaque. Para estrangeiros, nômades digitais e profissionais que pensam em viver no país de forma legal, o momento é favorável, mesmo que as mudanças aconteçam de forma gradual. O país segue oferecendo boa infraestrutura e um ambiente confiável que permite planejamento de médio e longo prazo.
Além disso, o Chile combina qualidade de vida com vantagens fiscais relevantes, como a possibilidade de viver por até seis anos sem pagar imposto sobre rendas do exterior, e mantém o maior Índice de Desenvolvimento Humano da América Latina.
Se você avalia o Chile como uma opção para viver, trabalhar ou organizar sua vida fora do Brasil, entre em contato que podemos te ajudar.
Temos parceiros que acompanham o contexto chileno de perto e podem te ajudar a tomar decisões com mais segurança.
Mas, se ainda existir dúvida sobre se o Chile é a melhor escolha para o seu momento, uma chamada introdutória pode ajudar a organizar as ideias. Nela, entendemos seus objetivos, analisamos possibilidades e apontamos caminhos mais coerentes com o que você busca hoje.


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